10 anos de Up, do R.E.M.

Este artigo foi escrito em Novembro de 2008, em homenagem aos 10 anos de um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos, e também para marcar a segunda passagem da banda pelo Brasil (a primeira em São Paulo), que aconteceria dias depois, e que ainda não escrevi a respeito :P .

A retomada deste aconteceu depois que vi o Diego Maia comentando sobre como um par de fones de ouvido decentes fazem muita diferença. Era um argumento que eu usava com freqüência na comunidade do R.E.M. no Orkut, quando o assunto era o penúltimo (e detonado) albúm da banda, “Around The Sun”, mas que serve para também para explicar o quanto esse fator maximiza a experiência de se ouvir UP.

Outra coisa interessante que só notei depois de um toque do Pedro Perurena, foi perceber que UP tem muitas semelhanças, estéticas e históricas, com Adore dos Smashing Pumpkins. Ambos álbuns pós OK, Computer (mas pré Kid A), e paridos de maneira dolorosa, com o desafio de empreitar reinvenções depois da saída de seus bateristas, personagens essenciais no processo criativo e na força das bandas. Esse assunto merece um post exclusivo

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R.E.M. - Up (1998)

Em Green (1988), há um discreto número 4 na capa do álbum. No álbum anterior, Document (1987), há um 5. Isso fez com muitos fãs começassem a levantar uma absurda ‘teoria da contagem regressiva’, obviamente negada pela banda. O curioso é que, depois do suposto álbum ‘0‘, New Adventures In Hi-Fi (1996), as coisas mudaram radicalmente na vida do R.E.M.

Vendas inexpressivas depois de assinado o maior contrato do mundo da música até então (80 milhões de dólares, além de outras boiadas), empresário demitido depois de uma acusação de assédio sexual, fim da parceria com o produtor de longa data, doenças (hérnia, apendicite, aneurisma cerebral ) atacando os membros da banda, e que fizeram com que o baterista Bill Berry (que foi quem sofreu o aneurisma) quisesse sair da banda, sem antes fazer com que os três membros remanescentes concordassem em continuar a banda.

O R.E.M. de 1998 era um trio, com novo produtor, com o desafio de parir um trabalho ainda melhor que o anterior. Para muitos isso significava vendas no mesmo nível dos álbuns feitos no começo dos anos 90. Para a banda, significava não só a provação de ter que se reinventar com a nova formação mas também fazer algo à altura de Ok Computer (para muitos, o melhor álbum daquela década), do Radiohead, banda do Thom Yorke, fã confesso de R.E.M. e amigo pessoal do Michael Stipe.

Para a difícil tarefa, a banda convidou o produtor Pat McCarthy, com o auxílio do engenheiro de som Nigel Godrich, produtor do Radiohead. Certamente, a presença de ambos foi decisiva na nova sonoridade da banda, ainda mais sofisticada e ousada se comparado com os maravilhosos trabalhos anteriores.

Contudo, para muita gente, esse flerte do R.E.M. com o experimentalismo foi entendido como mais uma tentativa de uma banda de rock mostrar-se moderna através do uso de elementos eletrônicos (artifício muito usado por bandas – com casos de sucesso e fracasso – na segunda metade da década de noventa), quando a verdade é que UP mostra uma sábia orquestração de elementos poucas vezes compatibilizados, com influências que remetem, entre outras coisas, aos Beach Boys e ao Roque Progressivo do Genesis (com Peter Gabriel).

Também foi a primeira vez que um álbum do R.E.M. tinha suas letras impressas no encarte. Talvez porque, mais do que nunca, Michael Stipe sentisse a necessidade de deixar o mais claro possíveis os seus versos sempre difíceis. As canções falam de pessoas distintas que em comum compartilham a solidão.


“Daysleeper”, primeiro single de UP

Airportman, faixa de abertura, fala de um cara que trabalha num terminal aeroportuário (Creature of habit). Suspicion é cantada por um cara perdido em suas imaginações, avesso à qualquer interferência externa (Step down, I’ll dream tonight). At My Most Beautiful é uma linda canção de amor esquizofrênica (I though I saw a smile).

The Apologist é um exercício perpétuo de desculpas (Thank you for listening, goodbye) com uma lina de guitarra que figura entre as melhores da década de 90. Sad Professor é outra na qual o protagonista professa suas imperfeições e incostâncias (I’m drifting in and out of sleep).

O terceiro e último ato de UP começa com Walk Unafraid, sombria com refrôes tensos, mostra a luta em manter-se forte frente às quedas sempre comuns (I just want to hold my head up high). Curiosamente, Why Not Smile funciona como uma continuação (The concrete broke your fall). Daysleeper é uma contemplação da solidão num trabalho noturno (Fluorescent flat caffeine lights) e tem os vocais de apoio mais lindos de todos.

Diminished é comandada por um baixo aterrorizante, um guitarra melancólica, e barulhinhos que remetem à loucura vivida pelo réu que tenta defender-se de um crime passional (Can I charm the jury, my defense? Maybe I’m crazy). Parakeet fala de sonhos de liberdade (Baby, you can start to breathe). O fim acontece com Falls To Climb, com a morte daquele que escolheu o papel de bode expiatório (someone has to take the fall, why not me?).

O conceito de UP é todo construído através dessas pequenas histórias de pessoas ordinárias anunciando as formas distintas de solidão. Mas a grande sacada de UP está em mostrar que toda e qualquer miséria é confrontada com a esperança, do funcionário que enxerga grandes oportunidades ao réu confesso que espera a absolvição. Através de pessoas comuns o R.E.M. consegue comunicar a sua situação na segunda metade dos anos 90. Curiosamente, a turnê de UP é a melhor fase ao vivo da banda (fase essa encerrada com honras aqui no Brasil, em 2001).

UP, como muitos outros álbuns do R.E.M., foi concebido para ouvir com calma, com um bom equipamento de áudio, para que todas os detalhes, toda a genialidade de sua orquestração seja percebida. Até hoje me surpreendo com um ou outro blip ou toin, uma guitarra ou uma voz em segundo plano.

Eu gosto tanto de UP que ele inspirou o layout deste blog (N. do E. – O blog, neste caso, é o antigo Enloucrescendo.com) :)

FAIXAS:

1. “Airportman” – 4:12
2. “Lotus” – 4:30
3. “Suspicion” – 5:36
4. “Hope” (Leonard Cohen, Buck, Mills, Stipe)1 – 5:02
5. “At My Most Beautiful” – 3:35
6. “The Apologist” – 4:30
7. “Sad Professor” – 4:01
8. “You’re in the Air” – 5:22
9. “Walk Unafraid” – 4:31
10. “Why Not Smile” – 4:03
11. “Daysleeper” – 3:40
12. “Diminished”² – 6:01
13. “Parakeet” – 4:09
14. “Falls to Climb” – 5:06

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