O primeiro amor platônico a gente nunca esquece

primeiro

Em 1985, as rádios tocavam exaustivamente os sucessos do rock nacional. Mas para mim, a canção mais importante daqueles dias era a do ALECRIM, que embala a história que eu vou contar a partir de agora…

Alecrim / alecrim dourado / que nasceu no campo / sem semear / Oh meu amor / quem te fez assim / pois a flor do campo / é o alecrim (…)

Cantávamos a plenos pulmões, nós os alunos da pré-escola da Tia Rosângela. Toda as Sexta-Feira visitávamos a casa de algum colega da classe. A turma era organizada em duas colunas, meninos e meninas, e cada menino dava a mão para a menina ao lado. E eu sempre ficava ao lado da garota mais linda da turma, Regiane Cristina Cerqueira, a Gigi, como a conhecíamos.

Minha fragilidade sentimental (que acompanha-me até hoje) fez com que eu me apaixonasse pela Gigi à primeira vista. Vi seus olhos ligeiramente puxados, que fechavam-se quando sorria, enquanto eu a observava, boquiaberto. Aquele agasalho azul marinho da Adidas, sobre o seu vestido azul-claro com detalhes vermelhos, aquilo era para mim a mais perfeita síntese da harmonia. Então ouvi sua voz, que era tão doce quanto uma laranja lima (este era o meu parâmetro de doçura), e então confirmei a minha expectativa, de que ali encontrava-se a garota mais linda do mundo.

E nem sob tortura saberão para qual time eu torcia até aquela tarde de 1985 quando eu vi Gigi chegar no prezinho com uma camisa listrada do São Paulo Futebol Clube. E eu decidi que aquele seria o meu time do coração, pelo resto da minha vida. Desde então se choro ou sorrio vendo as peripécias do Tricolor do Morumbi eu só tenho a agradecer à Gigi.

Em casa, os desenhos animados japoneses me ajudavam a matar o tempo, enquanto não chegava a hora de ir para a escola, e rever a Gigi. Mesmo ainda fazendo xixi na cama (o terrível segredo), e não sabendo amarrar os cadarços do próprio tênis, eu me sentia responsável o suficiente para namorar a Gigi. E o fato de ela não saber nada disso era um detalhe relevante. Num dos muitos passeios da turma, quase fui privado de sua companhia. A Tia Rosângela colocou o Jaime no meu lugar. Mas para a minha sorte, ele estava com o braço quebrado, e eu voltei ao lugar que era meu por direito. A Gigi costuma levar um lencinho branco para enxugar o suor de nossas mãos. Eu flutuava de maneira a fazer inveja ao Charlie Brown apaixonado pela Garotinha Ruiva.

Mas o ano de 1985 acabou, levando consigo os passeios, o alecrim, e principalmente a Gigi. Percebi, então, que só voltaríamos a nos ver em 1986, quando voltássemos às aulas, na primeira série. Durante as férias, sempre que minha mãe ia ao supermercado, eu procurava acompanhá-la, na esperança de que a Gigi estivesse na companhia da mãe dela. Mas isso nunca ocorreu.

Então, chegou o primeiro dia de aula, e o coração disparou. Ainda mais quando vi o pátio da escola lotado, enquanto uma funcionária chamava os alunos, em ordem alfabética, para suas respectivas salas. Depois de algumas Cláudias, Elaines e Paulas, o nome Regiane Cristina Cerqueira foi chamado e eu pude, enfim, vê-la novamente depois de meses, subindo as escadas. Mas suas mãos cobriam o rosto contendo o choro (até hoje não entendo por que muitas crianças choram no primeiro dia de aula). Foi a última vez que a vi…

No mesmo ano eu fui transferido para outra escola e assim minhas esperanças de reencontrar a Gigi diminuíram. Restava-me tentar encontrá-la pelas ruas, coisa que se tornou impossível depois que eu mudei para uma nova casa em um novo bairro. O tempo passou, levando junto outros amores platônicos, mas sem o mesmo significado desse primeiro…

Nove anos depois, em 1994, eu estava prestes a entrar numa nova escola, no primeiro ano do segundo grau. Fui até a casa da minha prima e amiga, Eliana, para contar a novidade. Ela pediu para que, logo que eu chegasse na sala, procurasse pela irmã de seu namorado. – Qual é o nome dela? – Regiane – Regiane do quê? – Regiane Cristina Cerqueira.

Fiquei tão boquiaberto quanto em 1985, quando eu a vi pela primeira vez. Comecei a pensar nas inúmeras possibilidades que o reencontro poderia proporcionar. Mal agüentei os dias que se arrastaram, até chegar ao grande momento! No primeiro dia de aula, consegui enxergar umas cinco Regianes no rosto de outras garotas. Fui conferir a lista dos alunos e para minha surpresa, Regiane Cristina Cerqueira estava na minha sala. Aguardei sem conseguir ficar com a cabeça no lugar, olhando para todas as garotas da classe e imaginando qual delas poderia ser a Gigi. Foi quando o professor chamou seu nome, e ela respondeu “presente“…

Eu poderia escrever que escutei novamente aquela voz doce de laranja-lima, mas não. Longe de ser desagradável, sua voz, óbviamente não era a mesma. Ainda era muito bonita, mas por mais que seu rosto denunciasse, eu não conseguia enxergar nela a Gigi de 1985. Preferi não me manifestar, e só duas semanas depois ela veio falar comigo, depois de ter conversado com a minha prima. Ela perguntou por que eu não havia falado com ela, e respondi com um criativo “sei lá”. Relembramos algumas coisas daquela época, mas eu não confessei o quanto ela foi importante para mim. E nem de longe passou-me tal idéia, principalmente pela certeza de eu não ter sido tão importante pra ela. Ou, talvez, porque eu não estaria me confessando para a Gigi. A verdadeira Gigi, a minha Gigi, desapareceu para sempre, depois de subir aquelas escadas e se perder dentro de uma sala de aula na primeira série…

Leave a comment