Como eu havia dito no post anterior, Marina e eu estávamos exaustos depois de um dia que começou no topo do Empire States e terminou na Toy R Us passando por um MoMA fechado, o Central Park vazio, o Museu de História Natural cheio e o Zocalo delicioso. Chegando ao hotel Marina caiu na cama e eu resolvi descer até uma padaria que havia ao lado do hotel, na rua 34, para comprar Coca-Cola. Na ida passei em frente a um local cuja fachada dizia apenas MANHATTAN CENTER e percebi uma fila de gente com caras de que gostavam de música legal, e aos poucos essas pessoas iam entrando no local, sem antes passar pela revista dos seguranças. Imaginei logo que fosse um show, mas sem fazer idéia de quem.
Deixei quieto e entrei na padoca e comprei a minha Coca. Então atravessei a rua e cheguei mais perto desse MANHATTAN CENTER e olhei por um dos vidros e pude ver um cartaz que dizia PIXIES PLAYS DOOLITLE e foi então que eu descobri que o tal Manhattan Center era o HAMMERSTEIN BALLROOM, casa fodida de shows, que já abrigou diversos espetáculos que estou com preguiça de ir procurar no Google pra listar aqui.
Na real, o nome soou familiar porque logo que começamos a planejar essa viagem, no começo do segundo semestre, eu não parava de fuçar a área de EVENTOS do Last.fm para NYC. E aí, amigo, o desespero bate por três motivos:
1) Muitos shows acontecem em Nova Iorque. Às vezes numa semana podem acontecer shows que no Brasil não aconteceriam num ano. Durante a minha estada houve vários do Sonic Youth (que eu não gosto e já vi ao vivo, em 2000), e um deles com show de abertura a cargo do Dinosaur Jr. (que eu adoro e nunca vi ao vivo), Devendra Banhart e Little Joy (foram dois, e eu comprei ingressos para ambos, mas Marina e eu ficamos com preguiça de ir ao segundo, no Brooklyn), Zero 7 (que fomos, mas gostamos muito mais da banda de abertura – Body Language), Devo, Meat Puppets, Camera Obscura, Dirty Projectors, Echo & The Bunnymen tocando Ocean Rain na íntegra (eu comprei ingressos, mas eles cancelaram) e isso só para falar das bandas bastante conhecidas. Mas o desespero, neste caso, bate menos pelo excesso de bandas mas mais pelas outras bandas que vão tocar um ou dois dias depois da sua partida. É o caso do Passion Pit, banda que eu mais queria ter visto esse ano, e que tocou 3 DIAS depois da minha partida.
2) O excesso de bandas legais tocando na mesma cidade na mesma semana causam dois problemas: o primeiro é ter grana para bancar todos os shows que você sempre quis ver (isso quando não estão esgotados e daí você pode correr o risco de comprar na mão dos cambistas) o segundo e maior problema é decidir em qual show ir quando acontece das bandas tocarem ao mesmo tempo, em locais distintos. Isso aconteceu comigo quando eu, num momento de distração e felicidade, ingressos para os shows do Devendra Banhart e para o Echo & The Bunnymen, sem dar conta que ambos tocariam em lugares distintos as 20h do Domingo, dia 22 de Novembro. No começo fiquei bem triste, e estava decidido a ver o Devendra, mas poucas semanas antes da minha ida houve o anúncio de um segundo show do neo-hippie, na Segunda-Feira, e dessa vez com abertura do Little Joy. Perfeito. Comprei os ingressos todo feliz, e como alegria de pobre dura pouco o show do Echo foi cancelado um dia depois (sad trombone).
3) Como eu falei no item 1, eu só havia listado as bandas conhecidas. E o que mais tem são bandas desconhecidas e BOAS tocando na cidade. Atualmente no Brasil estamos sofrendo cada vez menos com a ofertas de bons shows de bandas iniciantes, mas a coisa lá fora obviamente já está muito a frente. Assim, não foi um prazer conhecer bandas como Little Dragon a ponto de não querermos ver a banda seguinte, que seria o Body Language, banda que se provou melhor que a atração principal dias depois, quando abriram para o Zero 7. E ter tempo para ver o que há de legal acontecendo na cidade, tentando antecipar quais vão extrapolar os limites de Manhattan e chegar aos ouvidos (e aos palcos) brasileiros, é um prazer que gostaria de ter estendido.
Pois bem, voltando aos Pixies, fiquei bobo com a surpresa, e por um instante triste pois eu não havia comprado ingressos pois estavam Sold Out. Cheguei num cara na frente do local e perguntei se ainda havia ingressos, e ele me respondeu que conseguiria pra mim por 80 dólares. Pensei um pouco e disse que voltaria em breve.
Eram umas 20h e eu corri pro hotel e avisei a Marina que deu um pulo da cama e correu pro banho. Enquanto isso fui comentar as novidades com os amigos no Twitter, e só de manifestar que eu estava “pensando” em ir quase fui crucificado. Marina se aprontou e daí corremos para a frente do Hammerstein Ballroom, mas não sem antes combinar como faríamos com os ingressos. Marina ficou com 200 dólares no bolso e com todo o seu charme de mulher mais bonita de Manhattan e pois se a falar com um cara que nos abordou logo que chegamos ao local (e não o cara com quem eu havia falado antes). O cara ofereceu 150, mas a Marina ofereceu 100 por dois. O cara então abaixou, mas por 60 cada ingresso (o valor de face dos ingressos). Compramos e fomos felizes para a fila.
Chegamos no HB lotado e o show já havia começado. Se não me engano, e se o setlist foi igual ao do dia anterior, chegamos pouco antes de Debaser, quando Doolittle começa valendo. Sim, tocaram, todo o álbum do começo ao fim, na ordem (com direito à Kim Deal comentando “essa é a última do Lado A”). Aliás, Kim Deal não só fez seus majestosos vocais de apoio como cantou Into The White, das poucas que não há a voz do Frank Black em primeiro plano. A banda estava afiada e se houve erros ninguém percebeu. As músicas foram executadas com precisão, na mesma velocidade do original, mas com a crueza prevista por uma banda com formação tocando um disco de gravação e produção (imagino eu) complexas.
Doolittle tem mais de 20 anos, e é impressionante como ele simplesmente não envelhece. Pelo contrário, são raríssimos os álbuns que seguiram a sua trilha e conseguiram equiparar-se, mas desconheço algum que tenha superado-o. De longe é o meu preferido dos Pixies, embora não tenha a minha preferida, Alec Eiffel, que não foi tocada. E mesmo sendo a preferida não fez falta frente ao ótimo repertório. Saímos de lá felizes, com a sensação de que surpresas podem fazer as coisas melhores, podem fazer você ter a certeza de que está no lugar mais certo do mundo.
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poxa! vcs são um casal de sortudos! bateu a maior inveja (boa, claro.) aqui…
e que bom ver você escrevendo denovo. depois do enloucrescendo fechado não tinha visto mais nada seu.
hugs!